terça-feira, 16 de junho de 2015

Solidão repentina



Seu corpo frio
na mais alta montanha do mais alto [eu] morro
esmaece contra a imensidão.

O que sobrou de ti homem,
além da solidão?
Uma lástima, um touro, um paquiderme?

Sobraram-te parcos versos
inserenos, débeis como a lua minguante.
És ninguém. Não serás ninguém.

Estás preso num quarto, escuro e gelado,
enquanto bailam teus olhos
na mais perfeita tradução do nada.

Estás só. Não há ninguém,
objurgou-te a mais completa obliteração.  

Ouves? Consegues ouvir?
É o silêncio, invadindo o (in)cômodo
com suas águas de veneno.

Exatamente isso que ouvirás
in saecula saeculorum
enquanto te abafas e estás impedido de dormir.

Caio Torres
16/06/2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

(sem título)



Os olhos desta noite
não sabem rezar.

Estou com saudades.

Sou falho



Destino, oh, Destino,
formosa distância
entre o presente e o futuro.

The yellow brick road

Tuas obviedades não mais saciam
o meu pensar. Não sou teu patrimônio,
não pertenço àquilo que nomeias fatídico.

Eu sou o vazio do silêncio
a reprodução da humanidade
o canto em bando dos genes
a necessidade da carne
os cabelos gris.

I am the child-color inside my mind.

Permita-me desconhecer
minha causa mortis.
Deixa-me respirar por dias e mais dias seguidos
sem que reconhecesse motivo algum
em tal ausência de privação.

O meio o começo e o fim

Juro por minhas carnes amar e lutar,
na fúria pelo sabor das nuvens
e a ânsia dos pulmões.

Repassarei o que é meu
(e que o é de bom tamanho)
pela sequência que se faça vitoriosa,
após uma miríade de seres.

Alea jacta est

Rostos enfileirados e soterrados
em pilhas
como se a origem de um homem
fosse diversa daquela de seu similar.

Virá a derradeira vida, já mal concebida em seu ventre,
no posecatombe apocalíptico, sendo parida
para amargamente perceber
que seu fim brotou de seus ascendentes.

É isso, Destino, somos todos falhos.
Nossa natureza verga o idealismo
e transforma em ideais totalitários.

Então, ao menos, dá-me o prazer da poesia
(esta breve irreverência que mantenho com zelo)
para que eu possa rir em minhas tripas
da minha própria limitação.

Caio Bio Mello
08/06/2015

Duas retas



Duas linhas retas
                        separadas pelo tempo
            no turbilhão da vida.

Desencaminhavam-se como grãos de areia
perdidos em um milhão de iguais,
na homogeneidade discricionária.

O paralelismo
                                   ALEATÓRIO E moroso

reproduzia-se numa ânsia de incompletude.

A descolorenteza
assintótica arrastava-as uma para longe da outra.
O mundo, vasto mundo,
aproximava-as para deixá-las a poucos centímetros,
mas jamais permitia-lhes o sabor do toque.

Era o quase pelo nada. Nem sequer uma mísera tangente.
Na valsa rebuscada, eram o tempo e o contratempo.
Corações pulsantes, da mesma época, elaborados do mesmo fabril,
mas repartidos por um quarto de século.

Pois então, por um denominador comum,
regra excessiva de um cálculo impossível,
perdeu o prumo o destino e, em seu tropeço,
permitiu (por um átimo) que se vergassem as retas.

Para elas, bastou um único ponto,
um centésimo de segundo – e nada mais –
para que se fundissem por completo.

Jungidas, entrelaçadas, transformadas em novelo,
explodiram as retas num espiral de imensidão,
em cores, ângulos e curvas.

E, assim, ao dividi-las por si mesmas, multiplicaram-se
e, por resultado,
na raiz da equação, resultou o infinito.

Caio Torres
08/06/2015