sábado, 23 de janeiro de 2016

Um pouco da vida dentro da vida

Há uma percepção da vida
dentro da vida.
Uma camada mais densa, profunda.

O sentimento de fluidez, perpetuidade,
harmonia.
Em meio à serenidade, há a coesão.

Como achar o barulho por detrás do silêncio,
ou sentir-se solitário em meio à multidão,
ou saber dos sentimentos mesmo que não os expressem.

É olhar aquela rosa e sabê-la única.
Não são as rosas. É aquela rosa.
Pressentir o choro mesmo antes da lágrima,
vivenciar as sensações preexistentes.

É uma existência metafísica, transuniversal.
Como se um pouco de tudo fosse um grande quadro
uma imagem única e completa.

Esse lado do viver distancia-se do cotidiano,
da objetividade dos semáforos e leilões.
É algo no limiar da intangibilidade.

Lá, a vida faz sentido em sua plenitude.
Nessa profundidade, nesse desdobramento,
é possível identificar a origem, o núcleo, o epicentro.
De lá irradiam as decisões, as sensações, o mundo.

Não tem gosto, nem cheiro, nem cor.
Mas está ali. Logo ali. Em tudo.
Está em tudo, sempre.

Caio Bio Mello
22/01/2016 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Poe(mar)

Singrante embarcação, tórrido mar
as nuas curvas de âncoras paixões
inúteis naus com velhos batalhões
redomoinhos soltos a espu(mar)

Se neoconhecer se trans for (mar)
esse peito escafandro sensações
em abrir berro afundados canhões
falha profana profunda do (a)mar

Se puxa, revira – cardiorrenteza
Há furos, buracos e infiltrações
Parco barco consegue se acal(mar)

Entre oráculos, corais e rincões
Amatlântida sacra fortaleza
Lá saberia a nau se ama(l)ga(mar)

Caio Bio Mello
20/01/2016

O pássaro na janela

Quem és tu, então, oh pássaro?
És passado, presente ou deletério?
Jazes em minha janela.
            Sepulto indiferenciado em desclaustro
(a morte nunca foi tão dúbia)

Vai, voa para tua terra.
Ornitópolis – despropositada existência em meu vidro.

                        És silêncio, erro, nefasto.
Ave de penas cromatocráticas.
Que desejas? Não vês que estou moribundo?
            És o presságio lindeiro.

Posso ouvir-te. Tu, que me conheces tão bem,
                                   onde estiveste esses anos longos?
Banha outra janela com tuas multicolores.
            Teus olhos de rapina. Ave, afã, monstro.
Queria eu saber de outro ofício, de outra vida.
                        O desterro e o destripo.

Posso ouvir-te bicando meu sepulto.
            O verdadeiro desassossego.
Não biques meu cadáver, age com respeito!

Larga-me, vá. Não busques em mim o que não encontras em ti.
            Não vou te responder, nem te apoiar, nem te alimentar.
                        És necrófago alado.
Desejas minha carne.

Sinto-me confuso, engodado. Teu arco-íris é fascínio,
            mas teu hálito é pútrido.
Distorço-te? Não digas ser irreal porque já não saberia mais discernir.
            Talvez sejamos iguais, ambos. Tu, mais que eu.
                        Teu bico curvo que dilacera intestinos
e meus dedos afalanjados de unhas rotas.
Tu bicas. E eu, do outro lado, arranho a mesma madeira.
            Sabes me dizer se eu conseguiria sair?

Caio Bio Mello
20/01/2016

União

A vida sempre nos dá uma nova chance.
Um novo sorriso, um novo abraço,
uma nova ideia.

Nós só precisamos parar
e ouvir.
Silenciar os nossos demônios
e sentir o vento passar.

É preciso saber dosar a dificuldade do cotidiano.

Alguma vezes, a vida é muito simples,
somos nós que a complicamos.
Pequenos erros, desacertos. Brigas fúteis.
Não podemos perder tempo, ele é formidável.
O perdão é indispensável
e a paciência, um dom.

Em outros momentos, a vida é complicada,
e nós achamos que ela é simples.
Aquele segundo de foco, a pulsação da raiva.
Todos os dias, perdemos algo – em maior ou menor escala,
e quase sempre não notamos a perda.

Saber do equilíbrio é saber de nós mesmos.
Seremos atentos. Olhos e corações abertos.
É preciso diferenciar o que pode ser salvo
do que já não tem mais sentido.

Foco. Simplicidade.
Não nascemos perfeitos,
mas temos a capacidade
de acordar a cada dia,
de pulsar a cada minuto,
de viver a cada sopro.

Manter a calma
e remodelar aquilo que chamamos de eu,
o animal selvagem que nos doma desde a infância,
para, enfim, entender o que há nele e que habita em nós.

Caio Bio Mello
20/01/2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Parricídio

O poema se dirige ao poeta.

“Father?”

“Yes, son?”

“I want to kill you.”

Caio Bio Mello
14/01/2016

domingo, 10 de janeiro de 2016

Quando o poema subjuga o poeta

Há poemas que coabitam dentro de mim,
mas não tenho coragem de escrevê-los.
São ideias gigantescas, que me marcam
ou que são um tanto incompreensíveis.

Tenho medo de trazê-los à vida.
Nesses casos, não sei se estou à altura da ideia.
Ela é bela demais – e eu sou tosco poeta bruto,
que tenta fazer versos quaisquer com um pouco de sentido.

Essas palavras podem ficar dentro de mim por meses,
ou até mesmo por anos. Eu penso, faço, repenso, refaço.
Mas sem nunca deitar uma única palavra no papel.

Eles explodem dentro de mim.
Quem sou eu para tentar impedi-los de existir?
Se são bons poemas, deveriam vir à vida!
Mas não posso... Talvez eu seja fraco.

Eu não os entendo e eles não entendem a mim.
Estes são uma categoria diferente: desde o princípio,
conheço-os como poderosos.

Eles são feitos de outro modo, brotam do âmago
e mexem com minha essência. Providos de carne, biologia.
Por isso mesmo, não me sinto digno de escrevê-los.
Eles já vivem por si.

Mas eles me pressionam. Urgem pela vida.
E eu cedo, não posso negá-los. Eles têm razão,
eles estão certos!

O resultado, porém, não depende totalmente de mim.
Nunca podemos garantir o lirismo eruptivo, a perfeição estética,
a qualidade profunda da Arte.

Quando saem perfeitos, sinto-me pai orgulhoso
de crianças saudáveis, com um saboroso futuro.

Mas, por outro lado, quando saem imperfeitos...
Tenho a sensação de que falhei com eles. Mea maxima culpa.
Onde foi que errei? Escolhi as piores rimas? Perdi a métrica?
Onde está a ideia maravilhosa que me rasgou a mente por
tantos e tantos dias?

E o pior: depois de escrevê-los, não posso refazer.
Eles já existem! Que direito tenho eu
de revirar o que foi feito? Seria uma deturpação,
deformação e desrespeito!

Nesses dias, surrado e batido, recolho-me no escuro,
entristecido pela falha.

Perdoai-me pela incompletude,
não sou poeta por qualidade.
Sou por sentimento, necessidade.
E, por isso mesmo, há algo que se perde
e que nunca mais poderá ser encontrado.

Caio Bio Mello
10/01/2016

Coragem

É necessário apurar a vida.
Precisamos limpar a aquilo que é ruim,
como se tirássemos a lama de nossos corpos.

Manter os olhos abertos
para ver o que nos segura.
Só nós sabemos aquilo que nos limita,
aquilo que nos impede.

Vamos seguir o rumo,
amansando nossas quinas
e aparando nossos espinhos.

A estagnação é uma amarra intelectual.
Temos que ser exigentes, corajosos.
O mundo já está farto de falhas e lágrimas.

Todo novo começo (reprincipio)
exige um nascimento.
Se for necessário, ajoelhe, chore
e cerre os punhos. Depois, levante.

Levante e continue. Respire fundo.
Ninguém nasceu desprovido de dor
e preenchido de heroísmo.

Cada um tem sua luta diária,
seus medos e suas limitações.
Todos nós sofremos, nossos corpos sofrem.

Mas a vitória nasce da perseverança.
Da continuidade. Nós sabemos quais são os nossos sonhos,
temos certeza do alcance deles.
Temos nossos desejos preenchidos dentro do peito.

As conquistas não se fazem sozinhas.
Elas vêm da reinvenção – da evolução.

E, se não houver evolução: revolução.

O sonho deve preencher um espaço da alma
a cada noite de pouco sono, a cada dia cansativo,
a cada desejo de desistir.

Nós já nascemos com o “não” tatuado no corpo.
Se formos fracos, temos a certeza da resposta.
Então, qual o problema de tentar? Uma negativa já recebemos.
Nada acontece por acaso.
Nenhuma lenda se cria no silêncio.

A grandiosidade se cria na insistência,
na coragem, na contestação, nos músculos,
no suor e nas lágrimas.

Se for preciso sofreremos. Se for necessário,
o corpo e a alma vão se arranhar.
Esse é o alimento para a superação.
A raiva desenvolve o corpo. A dor apura a vida.
A paixão e a alegria somente se tornam plenos
quando são contrastados pela solidão e pela tristeza.

E nossos sonhos, delicados e significantes,
poderão aflorar em nossos poros.
A coragem tem um cheiro doce. Ela atrai.
Podemos farejar os corajosos de longe.

E, assim, nosso caminho será nossa profissão.
A imensidão. A vida plena de quem se sabe completo,
se sabe forte – de mente, corpo e alma.

Venceremos.

Caio Bio Mello
10/01/2016