segunda-feira, 8 de abril de 2013

Momento



A vida é um
teatro
                        maravilhoso
sem fim
                                   sem sentido
mas com gosto. Muito gosto.

Um sabor indescritível.
A língua imersa em madrugadas maravilhosas,
profundamente perdida no raiar das estrelas.

                        A mente
não lúcida
perdida
                                   eufórica
alegre por ir
                        alegre por existir
alegre por desinibir.

Tudo se encaixa. As engrenagens mesclam-se
            Tudo tem fim. Tudo precisa
                        ser.
Ser. É tudo.               
            O que não se explica, nem merece significado.
A existência pelo seu próprio âmago,
                                                           as entranhas das estrelas.
O sangue pulsante de uma mente perdida.

Eu vejo. Olho e vejo. Enxergo o mundo de uma só vez.
                                   E ele é fantástico.
Radiante.                                Tão gigante.
Tão gigante
            que já não consigo descrever.
                        Abdicarei de só (r) ver.
E serei o claro, misterioso e carnal vi
                                                           ver.

Caio Mello
08/04/2013

domingo, 7 de abril de 2013

Abafem-me



Os limites entre a vida e o sonho
estão cada vez mais tênues.
Não sei mais se faço viagens abstratas
ou se o concreto me é palatável.

Estou me corroendo, me desfazendo.
Perdendo em mim o que há de ser.
As subjetividades multiplicam-se, somam-se,
e eu permaneço estilhaçado.

Ich bin grau.
Ich habe keine Farbe,
die ich liebe.
Meine Gefühl ist dunkel.

Há livros velhos na estante
que se desfazem com o tempo.
A terra há de comer, o verbo há de comer,
o sentimento será devorado

e somente as traças terão em seu bojo
a tristeza versada numa tarde pequena.
Desconheço-me
 a cada dia mais.

Io ho dimenticato la gioventù,
io sono qualcos’altro.
E la notte non ha
più luce per me.

I see myself as a distant friend
who I haven’t seen for quite a while.
Is he real? Am I a mirror?
Maybe my verses are nothing but a stupid joke.

I am a lyrical clown,
drowned in makeup
and lost in a dream,
the infinite, endless and maze shaped dream.

Life’s and endless maze.

Os caminhos bifurcam-se.
Dentro de mim, as veias fagocitam a carne,
diluem meus sentidos e
carregam enlouquecimentos.

O corpo padece, a mente perece.
Saber não é mais uma constatação.
É uma viagem hipersensorial,
diversas vezes desagradável.

Ich sehe zu viel.
Sehen tut mir weh.

Eu só gostaria de carregar essa doença a menos,
gostaria de poder contorná-la, externá-la como um traço.
A mera característica, um reflexo banal
como uma pinta ou uma cicatriz.

But my body is my living proof.
And my mind is my unliving standard.

Ninguém sabe de fato o que ocorre por detrás dos olhos de vidro.
Ninguém jamais viu, ninguém jamais conheceu.
E o frio recôndito jamais será partilhado,
sofrendo o coração em seu inverno sem fim.

A pele se rasga, se desdobra.
A mente parte-se em múltiplas e se cansa.
Ich bin müde. Kopf(welt)schmerzen.

Enterrem-me. Por favor.
Preguem a caixa de madeira e sufoquem meu último suspiro.
Deixem-no abafado debaixo da terra
e tenham a decência de nunca chamar por mim.

Caio Mello
07/04/2013



quinta-feira, 28 de março de 2013

Beurteilt



Ich sehe mir in die Augen.
Ich suche meine Seele.
Ich begreise meine Körper.

Ich weiss nicht,
ob ich eine Welt habe oder nicht.
(die Welt ist endlos)

Das Tier ist ein Biest.
Der Mond ist eng.
Ich habe die Gefühl,
dass die Krise von innen kommt.     

Das Leben. Ein Traum?
Ein sehr langes Lied.
Vielleicht nicht besonderes,
oder nicht verkäuflich.

Und ich… Ich bin.
Nur das.
Ich fühle jeden Herzschlag
und liebe jeden Tag.
Das ist alles.

Caio Mello
28/03/2013

terça-feira, 26 de março de 2013

Manicômio



Estou louco de fato.
Estou nu no meio do mato.
Se me pegarem assim? Eu juro que mato.
Não se pode invadir a vida de um homem no meio do ato.

Foi-se o tempo no qual a vida fazia sentido.
O nexo... Que nexo? Tal rancor de peito aberto.
O velho. Ele estava certo!
Ele me dizia que eu nunca devia ter nascido.

Ninguém faria o que faço,
nem se estivessem sozinhos no espaço.
Afinal, eu sou o ilustre palhaço
pintado de rosa, ambulante estardalhaço.

Eis um homem que nunca soube deixar a infância,
que nunca soube medir seus passos...
Está imerso na eterna ignorância,
vivendo o dia a dia num nó de laço.

Nufóbico raquítico recém-desnudo
o corpo branco e parco
relucinantenógeno
abasgatrusbeno

Mas calma... Eu nunca conheci um louco de perto. Loucaria ele assim reflexivamente? Ou seria a insanidade um estado tão profundo da alma que o louco não se saberia maluco? Os loucos são loucos e não o sabem: pensam-se sãos.

É...
Estou são de novo.

Caio Mello
26/03/2013

Fios envoltos por círculos dourados



Apenas um reflexo do que queria ter sido.
O corpo franzino, enfraquecido pelo tempo.
A alma apertada, carcomida e
imersa em diversas cicatrizes.

Dores e arrependimentos.
Imunda sensação de incompletude.
A mente padece e o corpo
logo se desfaz.

Os dedos já não são os mesmos.
As mãos já não são as mesmas.
Eis o mundo: supérfluo.

Um eterno circo de si mesmo.
O ato, o palco e os contos.
As ideias, os sonhos...
A utopia desmembrada.

A criança nunca cresceu
e o velho regride.
A condição de ser terra
e nunca ser raiz.

Aprofundamento na própria carne
e a carne regurgitante.
E os ideais, se os traísse?
Permaneceria talvez... Uma hipótese.

O claustro é a própria mente,
a solidão é mais um sentido.
Um sentimento isolado
preso a informações repetitivas.

O tempo perdido andando de costas.
Aquela tarde, aquele dia... E o presente.
O pressentimento e o recinto.
O ressentimento.

E uma nesga de libertação.

Caio Mello
26/03/2013