segunda-feira, 8 de junho de 2015

Duas retas



Duas linhas retas
                        separadas pelo tempo
            no turbilhão da vida.

Desencaminhavam-se como grãos de areia
perdidos em um milhão de iguais,
na homogeneidade discricionária.

O paralelismo
                                   ALEATÓRIO E moroso

reproduzia-se numa ânsia de incompletude.

A descolorenteza
assintótica arrastava-as uma para longe da outra.
O mundo, vasto mundo,
aproximava-as para deixá-las a poucos centímetros,
mas jamais permitia-lhes o sabor do toque.

Era o quase pelo nada. Nem sequer uma mísera tangente.
Na valsa rebuscada, eram o tempo e o contratempo.
Corações pulsantes, da mesma época, elaborados do mesmo fabril,
mas repartidos por um quarto de século.

Pois então, por um denominador comum,
regra excessiva de um cálculo impossível,
perdeu o prumo o destino e, em seu tropeço,
permitiu (por um átimo) que se vergassem as retas.

Para elas, bastou um único ponto,
um centésimo de segundo – e nada mais –
para que se fundissem por completo.

Jungidas, entrelaçadas, transformadas em novelo,
explodiram as retas num espiral de imensidão,
em cores, ângulos e curvas.

E, assim, ao dividi-las por si mesmas, multiplicaram-se
e, por resultado,
na raiz da equação, resultou o infinito.

Caio Torres
08/06/2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Desmembramento



DESMEMBRAMENTO
Assim como os
pedaços de mim perdem-se ao chão,
consumo-me.

Em meu sangue
navegam as dores
purulentas tristezas
                        que se dissolvem e se regeneram
            (de)gênesis do que fui.

Nesta antrorrevelação
seguem caminhos tristonhos
(segue o meu baú com sonhos)
em veredas mil                                   sombrias.

Uma palma solitária sem dedos
silêncio contínuo de hipofagia
ramificação de todos os medos
seguem sufocando o que antes havia

Maybe I should
Cry for help

A besta solitária no degredo
anda com as patas na neve fria.
O sol não brilha, mesmo ainda cedo,
e o animal afoga-se na agonia.

Maybe I should
Kill myself

E como saber o que é o presente?
Ele não fala, nem sofre, nem sente...
Uiva para uma Lua que inexiste.

[O corpo dança. Suave.
Transgride as linhas perpendiculares.
Permanecem oblíquos os olhares.
O piche se distribui. Não há olhos,
nem se reconhecem os limites da silhueta.
O que é aquilo?]

Resta-lhe permanecer no caminho,
pois lhe impuseram que fosse sozinho.
Cambaleante, seu corpo persiste.

Se pudesse optar, se soubesse permanecer,
                        se lhe permitissem abrir os olhos!
            Ele não sentiria mais frio. Nunca mais.

Porém, é pedra solta de construção demolida.
Seus olhos perscrutam a neve e a imensidão do mundo.
Nem neste globo gigante, nem na infinidade do Universo,
em nenhum rincão
jamais caberá tamanha tristeza.

Caio Bio Mello
26/05/2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

Pequenos passos



Pela escuridão
                        que há dentro de si
            no nobre silêncio, voam as aves
                                   ao raiar de um novo dia.

O livro dentro de um livro
nas mil páginas que buscamos,
a esmo revirando enciclopédias.
(buscas digitais não têm o mesmo sentido)

Aquilo que cabe
            nas veias da mão
mas escapa aos olhos;
            as vistas cansadas
já perdem o foco.

[Ao menino de noventa:
que, por favor, mantenha seu sorriso.
Não deixe que te derrubem
as mazelas da juventude,
por mais agressivas que sejam]

Novarvorados sentimentos
desembrulham-se em meu jardim,
tal qual as raízes ganham profundezas
em busca de alimento.

A integridade persiste. É hábito.
Fixação fascinante.
Ceder-se-á dentro de si
a tanatoautofagia.
Sim. permanece o sorriso.
Por mais raro que pareça,
ainda que soe absurdo este badalar dos sinos da igreja...
As nuvens dissipam-se e é possível
vislumbrar, no horizonte,
o vermelho do oceano, profundo como nossos sonhos.
Ainda há esperança.

Caio Bio Mello
19/05/2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ecos e verdades

O silêncio 
É tumba 
Penitência 
Profunda. 

Caio Bio Mello
18/05/2015

Aequino

Sonhei com o cavalo
incolor
de olhos profundos 
e veias saltadas. 

Com os dentes pútridos,
ele devorou minha pele. 
Ruminou meus detalhes. 

Ao fim, permaneci largado 
ao pé da escada de cimento 
imerso na poça 
de meu próprio sangue. 

Caio Bio Mello
18/05/2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

Tra il dire e il fare

Coisas que tinham, agora, não têm sentido
e o que eu não desejava tornou-se real.
Pelo outro caminho eu deveria ter ido
e sem nunca prestar atenção num sinal.

Deveria ter tirado de mim o mal,
buscado o que há em mim de tão reprimido
que sequer deixa ser eu mesmo e, afinal,
me devora a carne com um triste ganido.

Teria tempo de atingir a superfície?
Ou eu permaneceria no fundo lamaçal
das coisas de querer dizer, mas nunca ditas?

Não sei, só pensar em meus erros, passo mal.
Minhas sensações continuam sempre aflitas
E eu me afogo naquilo que já nunca disse.

Caio Bio Mello
11/03/2015